domingo, novembro 19

"A vida é um sopro"



Leio na Folha que Niemeyer, às vésperas de completar 99 anos, acaba de se casar com sua secretária, de 60 anos, que trabalha pra ele há 30. O jornal conta ainda que o casamento de Oscar Niemeyer com sua primeira mulher durou 76 anos, até a morte dela.

Então me lembrei do documentário A vida é um sopro, sobre a vida de Niemeyer, que foi o filme escolhido para a abertura do Festival de Cinema de Brasília no ano passado.

No documentário, Niemeyer conta com muita simplicidade como concebeu alguns de seus vários projetos que viraram grandes monumentos no mundo todo: as inúmeras obras de Brasília, a sede da ONU em Nova York e muitos outros. Rascunhava num papel as curvas, as colunas, os arcos que marcam seu trabalho. Ele contava tudo, que idéias tinha quando pensava num projeto. Falava de um jeito que dava até a impressão que aquilo tudo era muito fácil.

O documentário revela um homem que conseguiu ao longo de sua vida colocar no concreto, literalmente, idéias que uniam estética e funcionalidade. O seu modo de ver o mundo se faz presente em cada projeto que desenha. Ele vê seu ofício como função social, quer projetar espaços que aproximem os homens.

Reconhecido mundialmente como um dos maiores arquitetos modernos, o Niemeyer que se mostra no documentário é um homem simples, fiel às suas crenças, muito lúcido diante dos problemas que afligem a humanidade. Reconhece que não passou de um sonho uma Brasília, sem muros, que integrasse ricos e pobres. No entanto, para ele, o sonho é fundamental para a vida, apesar da fragilidade do ser humano.

Ateu e comunista, concebeu vários templos religiosos. Numa entrevista, disse que ao projetar uma igreja sempre pensa nos que crêem em Deus e ali se recolhem cheios de esperança. Quando desenhou a Catedral de Brasília - belíssima, na minha opinião - imaginou que os espaços transparentes entre os vitrais que cobrem a igreja deveriam servir para que os mais devotos sentissem ali a presença de Deus.

Quando saí da sessão no Teatro Nacional, fiquei pensando na frase dita por Niemeyer e que dá o título ao documentário: "A vida é um sopro". Além do domínio técnico sobre seu trabalho, Niemeyer é movido pela paixão pela arquitetura, pela busca da beleza. "Minha paixão é criar. Desfruto da arquitetura e faço o que gosto. Não concebo nem busco uma arquitetura ideal. O dia em que existir uma só arquitetura, será o reino da monotonia e da repetição. Não quero saber a opinião dos outros sobre meu trabalho. Eu creio na intuição, minha arquitetura é uma proposta baseada na intuição".

9 comentários:

celia musilli disse...

que lindo..concordo inteiramente como esta maneira de ser intuitiva, chamo "inteligência intuitiva"! e adoro Niemeyer e seu trabalho... Beijoss

Cristiana Soares disse...

Texto ótimo. Bem bacana. Acho o Niemeyer um homem e tanto. Exemplo de vida, coisa e tal. Essa história de casar aos 99 anos é genial! Mas sabe que não gosto muito da obra dele? Sei lá, acho fria... árida. Opinião de ignorante, hein. Beijocas, Ca, minha amadinha.

carina paccola disse...

Eu não conheço, obviamente, todas as obras dele. De algumas eu tb não gosto. Umas construídas em outros países, que o documentário mostrou, me pareceram feias. Mas da Catedral, do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto, do Alvorada e de muitas outras de Brasília, eu gosto muito.
Eu gostei tb desses anos todos ligados a ele porque a vida dele não parece um sopro, parece mais uma baforada lenta...
bjs

carina paccola disse...

ah, tem algumas obras dele que já parecem velhas, arcaicas, que são datadas de uma época.
Tem outra coisa de que gostei no documentário. Ele fala algumas vezes: "Brasília é muito longe." Eu concordo inteiramente com ele e sempre disse isso.
O Sérgio Murillo também tem outro comentário a respeito do Niemeyer e de Brasília que acho engraçado e que os brasilienses não gostam: "Se Brasília fosse bom, o Niemeyer morava lá."
Imagine! O Niemeyer é super carioca, acho que ele não deixaria o Rio por nada.

paulo briguet disse...

Ah, Niemeyer. Uma das provas de que a natureza não é justa. Vaso ruim não quebra... Um stalinista criador de espaços vazios. Parabéns pelo texto, Carina, mas eu detesto esse cara. Sempre detestei, mesmo na minha fase trotskista.

carina paccola disse...

Paulo, quando vc fala que o cara é stalinista vc fala porque ele se declara comunista ou porque ele já defendeu publicamente o regime stalinista?

Aguinaldo Pavão disse...

Carina.
Enquanto Niemayer e outros intelectuais do mundo inteiro desejavam saúde e saudavam como o maior estadista da América Latina o assassino e ditador Fidel Castro, eu vibrava com a expectativa de que o mundo ficaria com um ditador a menos. Infelizmente, ele continua vivo.
Niemayer representa a mentalidade conservadora, reacionária, típica da esquerda. Liberdades individuais: ele vai dizer que isso é coisa para burgueses. Julgamentos sumários para dissidentes: ele vai dizer que isso é necessário para o bem da revolução.
Desculpe, mas Niemayer não.
Viva a liberdade.
Abraços.

Guilherme Paccola disse...

Adorei o texto. Cultura é sempre Bom... Quanto à liberdade política de cada um, bem como a liberdade de expressão, aplaudo com fervor. Stalinistas, trotskistas, e todos os istas que existem, inclusive meus diletos anarquistas, cada um tem sua inteligência e sua prática de vida. Imaginem se todos fossemos iguais, e mesmo assim não esqueçamos dos egoístas e individualistas.... Bjs.

lurching disse...

Queremos darle las gracias por todas las visitas de tu blog inquiriendo sobre Marc Henri - La película sobre Niemeyer.

Cordialmente,
Francois Wayenberg