segunda-feira, novembro 27

Transações monetárias na infância

Quando eu tinha 5 anos, meus irmãos mais velhos iam para a escola no período da tarde, e eu e minha irmã, de 4 anos, ficávamos em casa. Ainda havia um outro, de 2, que era muito pequeno para participar desse episódio.

Meu irmão de 10 anos tinha um cofrinho muito bonitinho. Era uma casinha. As moedas eram colocadas pela chaminé. Para tirar o dinheiro, era só abrir a portinha da casa com uma chave. Eu descobri essa chave.

Durante alguns dias, quando passava o sorveteiro na porta de casa, eu ia até o cofrinho, retivara umas moedas e comprava dois picolés: um pra mim e outro pra minha irmã. Até que chegou um dia em que o dinheiro só foi suficiente para um sorvete, que nós duas repartimos.

Era um sábado quando meu irmão descobriu que fora roubado. Ele chorou. E, inocentemente, contei que eu havia comprado sorvete com aquelas moedas. Minha mãe me deu um tapa rápido. Eu fiquei com pena do meu irmão. Mas eu tinha apenas 5 anos e não havia a menor possibilidade de ressarcimento.

Um tempo depois - eu devia ter uns 8 ou 9 anos, quando ganhei um maço de calendários. Hoje em dia não há mais calendários como aqueles. Eram pequenos. De bolso. De um lado, uma foto; do outro, a propaganda de alguma loja e um quadro com os meses do ano.

Era um maço grande. Acho que havia uns 50. Mostrei para meus dois irmãos, alguns anos mais velhos, e que colecionavam calendários. Logo eles fizeram uma proposta para comprar os meus. Eu aceitei.

Fui toda feliz mostrar para minha mãe o dinheiro que havia recebido com a venda. Ela olhou e disse: Esse dinheiro é antigo, não vale mais! (Provavelmente era dinheiro de alguma outra coleção dos meninos).

Eu fui lá reclamar meus direitos. Eles nem deram bola. Argumentaram que eu havia vendido e não tinha mais jeito.

Mais tarde um pouco, eu e minhas duas irmãs (com idades de 9 a 12, acredito) fomos convidadas pelo meu irmão, de 13, a participar de um clubinho que ele havia fundado. Tinha até uma musiquinha. Ele pegou uma música de um programa do Silvio Santos e colocou uma letra que dizia como o tal clubinho era bom.

Nós nos associamos e, obviamente, tínhamos que pagar uma mensalidade pra ele, que era o presidente. Devia ser uma mensalidade compatível com a nossa renda - algumas moedas. De qualquer modo, isso durou pouco. Nós percebemos a tempo que aquele clubinho era uma enganação e ficamos inadimplentes.

Ainda bem que nós crescemos e paramos de fazer esses negócios...

10 comentários:

sha disse...

He he he...dessas eu não sabia...

carina paccola disse...

esses seus tios...
bjs

guilherme paccola disse...

Não foi bem assim.... risos.... Bom, o direito brasileiro dá incapacidade absoluta aos menores de 16 anos. Melhor explicando os menores de 16 anos não têm capacidade alguma para serem responsabilizados pelos seus atos, ou seja, estão incapacitados de discernimento dos atos praticados. À época os índios também assim eram tratados. Assim, as punições como conseqüencias dos atos ilícitos praticados por menores incapazes são responsabilidade dos seus pais. Como lá em casa nossos pais eram comum, ficou tudo resolvido. Assim quando efetuamos o pagamento com dinheiro na compra dos calendários não tinhamos capacidade para discernir se o dinheiro valia ou não. É de lembrar também que o pagamento em si foi um ato simbólico, já que fora anteriormente pago com as moedas do cofrinho, que se transformou em vários sorvetes deliciosamente saboreados pelas pequeninas manas, que também não tinham capacidade de discernir que o dinheiro não era comum a todos os irmãos. Assim, como podem ver, não sabíamos de nada, igual o nosso atual e futuro presidente do País. Pela lógica, também não haverá punição alguma a ninguém pela total falta de conhecimento e discernimento dos atos praticados. Querendo ou não, me vanglorio junto com meus irmãos que já tinhamos, àquela época, um pequeno conhecimento da prática política atual, do qual acho que mamãe se orgulhará ao saber disso. Beijos

carina paccola disse...

Gui, eu ri muito do seu comentário. Está muito engraçado. Viva a impunidade!
bjs

gábi disse...

adorei! que fofo e singelo.

camilla valadares disse...

ahh hahahahhahaa eu já fiz vários negócios com a minha irmã...trocas bem injustas...que crueldade!! mas minha mãe sempre reforçou que "trocou já era, bom pra aprender"...demorou mas um dia ela aprendeu e eu tive que aprimorar minhas técnicas até o ponto em que acabei propondo sociedade...hehehe brincadeira...mas ainda bem que acaba..e eu me regenerei hehehehehe

mas lendo sua história eu fiquei meio com a sensação de estar ouvindo aquelas narrações feitas por crianças (não pela linguagem, mas pela história!!!!) em campanhas publicitárias e terminaria assim: hoje meu irmão mais velho, que era dono do clubinho, é um grande marketeiro e trabalha numa multinacional de serviços e convence todo mundo que pagar assinatura básica é uma obrigação hehehe desculpe a xaropada...mas eu pensei nisso :P

:)
beijos

Anônimo disse...

Cá:

que texto lindo, que nem vc! heheh! Se vc quiser, na loja do meu pai, ainda são distribuídos os tais calendários...

Bjão,

salomé disse...

Adorei esbarrar no seu blog. muito bom! Visitarei sempre. Um abraço.

carina paccola disse...

Oi, Dê, vc podia guardar um calendário desses pra mim... Um bem bonito. Beijos (que saudades de vc!!)

Ester, obrigada pela sua visita. É uma honra para mim. Eu é que adoro ler seus textos. Um abraço.

Cristiana Soares disse...

Hahahahaah!!

Carina, eu ainda não havia lido esse teu texto. Muito bom. Hehehehe. Adorei!

E esse seu irmão "adevogado". Que picareta, hein? Espero que pelo menos seja bonitinho... hehehe...