quarta-feira, fevereiro 6

Declaração de amor

Morar no centro tem sua graça. Como a de assistir de camarote aqueles carros de som com uma mensagem de amor, em alto e bom som, da Amanda para o Rafael, que ficou ali plantado na calçada, ouvindo tudo. Formou-se um meio círculo de pessoas desconhecidas que passavam e ficaram curiosas pra saber que mensagem era aquela. Com fundo musical romântico, as palaras eram lidas pela moça do carro de som. A mensagem era reconciliadora. Publicamente, Amanda pedia que Rafael voltasse pra ela. Sem ele, ela dizia que a vida não tinha sentido. No final, os dois se abraçaram. Sem óculos e do sexto andar, me pareceu um abraço meio protocolar. O público ao redor - e acima - bateu palma. Não sei se o Rafael vai ou não voltar para a Amanda. Mas ele nunca vai poder dizer que ela não tentou.

sexta-feira, novembro 9

Leitura dinâmica

O rapaz me liga oferecendo um curso de leitura dinâmica. Pergunta se gosto de ler. Eu gosto. Pergunta se eu gostaria de ter um rendimento melhor na minha leitura – e dá um exemplo do qual já não me lembro (mas fala sobre ler um certo número de páginas em um certo período de tempo). Fico admirada da rapidez. Ele então quer marcar 20 minutos pra fazer um diagnóstico de minha forma de ler para, então, oferecer o tal curso. Eu digo que não quero. Ele muda o tom. De simpático, passa a ser ríspido. E diz: “Bem, eu estou oferecendo um diagnóstico DE GRAÇA, mas se você não tem 20 MINUTOS para isso, então fica difícil”. Eu agradeço e terminamos a conversa. Sinceramente, não quero melhorar minha produtividade na leitura. Caramba! A leitura é uma coisas que faço com muito prazer – e o cara quer otimizar meu tempo na leitura. Ah, me deixe em paz! Eu queria ter mais tempo para ler, mas não ler mais rápido. Era o que faltava agora: querem tecnologizar a leitura.

quarta-feira, agosto 29

Sortes e azares!

Nós não temos nenhum controle sobre as forças da natureza nem domínio total sobre nossa vida e as vidas alheias. Mesmo assim a gente pensa, “torce”, para que aconteçam algumas coisas e para evitar outras em nossas vidas. Meu filho, por exemplo, não gosta de me ver por perto quando o Palmeiras está jogando porque fala que sou “pé frio”. Já fui culpada por derrotas e gols sofridos pelo Verdão, que também é meu time. Dou risada e falo: Quem me dera ter tanto poder a ponto de influenciar o resultado de um jogo.

Lembro de uma Copa do Mundo em que o Brasil estava decidindo um jogo nos pênaltis e eu estava na redação da Folha de Londrina. Na hora de os nossos jogadores baterem o pênalti, algumas pessoas evangélicas começavam: “Oh, Senhor, ajudai esse jogador. Amém, Senhor. Aleluia, Senhor!” Isso me irritava e eu provocava: E se houver, neste momento, várias pessoas rezando o contrário: “Oh, Senhor, abençoa o goleiro e faz com que ele defenda essa pênalti”. Quem é que Deus vai atender?

Quando eu trabalhava em Santo Antônio da Platina, na sucursal da TV Cidade, eu não gostava nada nadinha de cobrir futebol. Uma vez, deve ter sido em 1989, a abertura do Campeonato Paranaense ia ser em Santo Antônio com um jogo entre o Platinense e algum time da capital. Eu não tinha escolha. Tinha que estar lá no estádio, à noite, e trabalhar. Eu estava meio inconformada com isso e, desde cedo, ficava pensando: O que poderia acontecer para que o tal jogo não acontecesse? Durante o dia, em vários momentos, eu pensava: Ah, o que poderia acontecer, hein?

Então, estádio cheio e iluminado, teve início a partida. E eu lá, contrariada. Lá pelas tantas, bum, houve uma queda de energia elétrica no estádio e o jogo foi paralisado. Eu, internamente, sorri. Alguns minutos depois, a luz voltou e recomeçou o jogo. Mas durou pouco. Novamente a luz caiu e foram mais de 30 minutos no escuro até os organizadores decidirem cancelar a partida, para minha felicidade.

Lembrei dessas histórias porque já começo a me sentir culpada pelo veranico que está fazendo neste Inverno. Eu adoro o calor e detesto o frio. Então, fico extremamente feliz com este Inverno que marca temperaturas entre os 20 e 30 graus. Fico toda feliz. E eu não me importo com o tempo seco. É o clima de Brasília, que sempre me agradou. Tô começando a achar que meu filho tem razão (rs!)...

quinta-feira, junho 28

Sobre o Pacifico

sobre o Pacifico, meu coração está em paz!
o menino dorme ao meu lado
o navio desliza
pela janela vejo as águas geladas
em movimentos suaves
o Sol vem ao meu encontro
ilumina meu rosto
e faz brilhar as águas pacificas
as ilhas se aproximam
e depois seguem, cada vez menores
O mosquito está do lado errado
desprotegido
Eu protejo o meu coração
quando vejo o menino ao lado
O Sol só vem confirmar
que está tudo em paz

domingo, junho 17

A nobreza dos jumentos


Tenho dificuldade de me livrar de jornais não lidos. Talvez por ser jornalista, parece que não quero perder nenhuma notícia publicada. Ou será que é uma tentativa de valorizar o tempo perdido por algum colega repórter que se debruçou naquelas linhas? De qualquer forma, tenho por hábito ler jornal vencido. Como isso não se configura em transtorno obsessivo compulsivo, consigo perceber de quando em quando que não darei conta daquela pilha que só cresce e todos vão para o lixo de uma vez só. Mas ao meu lado sempre sobra um ou outro para eu ao menos passar os olhos antes de irem para as mãos dos recicladores.

Quando me deparo com algum artigo ou reportagem primorosa fico feliz por não ter me desfeito daquele papel velho. Hoje, peguei em mãos o Estadão de domingo passado (10 de junho) e me detive no título “Ao jegue, com carinho”, do jornalista francês Gilles Lapouge. E ele fala sobre os jumentos. De uma maneira tão bela e carinhosa que passei a amar os jumentos, tão desprezados pela humanidade.

“Está na hora de lembrar dos jumentos” – começa ele, exaltando a boniteza, força e resignação desses animais que servem só pra servir os homens. “O jumento não é só corajoso e útil: também tem caráter. Apesar de sua cortesia e indulgência com relação às loucuras e vilanias dos homens, jamais transige em questão de princípios”.

Em tempos de extrema valorização da esperteza, talvez o jumento tenha mesmo algo a nos ensinar. “O jumento sabe de tudo. Ele não trota nas mesmas paisagens que nós. Apenas aparenta compartilhar nossos caminhos, quando na realidade está em outro lugar, vem de outro lugar, vai para outro lugar. Ele atravessa educadamente nossa geografia sem fazer ruído para não nos perturbar, mas na verdade não caminha no mesmo passo que nós. Somente os poetas compreenderam a nobreza do jumento”.

Em outro trecho escreve que, com o passar dos milênios, o jumento começa a entender que as coisas não vão muito bem para ele, mas não se revolta. “Sua tática é sutil. O cérebro humano não a alcança. O jumento é submisso e glorioso ao mesmo tempo, resignado e irredutível, escravo e soberano, vencido e vencedor. (...) Encontrou obstáculos e os contornou. Ele se salvou do tempo. Sobre seus belos cascos, trota nas pradarias onde as horas não soam.
Se os espancamos, ele nos olha com um olhar incrédulo e belo. Não fica com raiva. Tem pena de nós. Não nos culpa, só nos observa. Ele gostaria de nos ajudar a ser menos vingativos. E nos consola de nossas maldades. ‘Não se preocupe’, parece dizer, arreganhando os beiços, ‘não é sua culpa. Você é assim, mas isso vai passar. É um mau momento, uma má eternidade. Depois, você vai ver, tudo será melhor’.

Nossa, fiquei comovida ao ser consolada por um jumento!
Texto do Gilles Lapouge:
http://www.estadao.com.br/noticias/geral,ao-jegue-com-carinho,884541,0.htm

quarta-feira, junho 13

Escuridão


No escuro, vem o silêncio. E a desesperança. A noite é longa, a escuridão realça a dor. No silêncio, dá pra ouvir com nitidez sua própria voz contando a sua história, revelando aquilo que você não queria saber. É melhor afastar a ideia de acender a luz porque agora nada vai iluminar seu caminho. Guarde sua energia porque a noite será longa. Você já passou por noites escuras assim, já sentiu dores semelhantes. O único alento é lembrar que sempre amanhece. Mesmo que esta noite dure várias noites, logo amanhece...

quinta-feira, maio 24

Amor canino

De repente dei de gostar de cachorro. Logo eu, que sempre tive medo de qualquer ser quadrúpede. Eu até gostava, mas bem de longe. Tinha mais medo do que apreço. Então o melhor mesmo era manter distância. Vai que vem me morder. Mesmo de brincadeira. Não gosto das mordidas caninas de brincadeira. Até porque nunca se sabe se os cães sabem a medida da brincadeira. Às vezes pra eles é só uma mordidinha de leve e pra gente é de arrancar o dedo. Sei não. Melhor não arriscar. Primeiro foi a Pink. Ela tem uns 30 cm de comprimento com uns 15 cm de altura da cabeça. Não sei como se mede um cachorro. Mas vamos dizer que ela é bem pequena e bem mansinha. Ela nunca veio com essa história de morder de brincadeira. Aliás, acho que ela nunca deve ter mordido nada. Não. Ela morde, sim. Os brinquedinhos dela. Eu até brinco de vez em quando de jogar os brinquedinhos. Ela sai em disparada, toda feliz. Cachorro fica feliz à toa. Ela também tenta subir no meu colo. Dá até aquela choradinha pedindo colo. Mas entre gostar dela e deixar que venha ao meu colo tem uma distância grande. Eu até já deixei. Mas eu mais não deixo do que deixo. Já a Nina tem uns dentes salientes que passam a ideia de brabeza. Ela já sabe que de mim o máximo que arranca é um carinho com o pé. Ela se aproxima e fica de barriga pra cima, esperando o carinho. Fico até com pena e penso no tamanho da carência a ponto de se contentar com carinho feito com o pé. É tudo o que eu tenho pra ela. Não, eu também jogo uns pedaços de carne de vez em quando, quebrando o regime feito de ração. Nas últimas semanas, entrou mais um cachorro em minha vida. Um filhote de labrador que mora perto do meu trabalho. Quando estaciono o carro perto da casa e ele está por ali coloco a mão entre as grades do portão e afago o bicho. Incrível. Ele fica todo feliz e me lambe. E late forte quando eu vou embora. Agora, recebi a notícia de que a Xuxu, que mora junto com a Pink e a Nina, está doente. Faz meses que ela está cega e anda perdida pela casa. Agora veio o diagnóstico de câncer. Nós duas sempre mantivemos uma relação cordial de ignorância mútua. Eu a ignoro, ela me ignora. E nos damos bem assim. Mas fiquei com pena. Ela sofre e nem sabe por que sofre. Me deu uma pena imensa. E desejei que tenha uma boa morte logo. E pensei que é estranho pensar no espaço que os cachorros ocupam na vida das pessoas. Mesmo na minha, que nunca lhes dei muito espaço.