terça-feira, setembro 5


Esses seres irracionais

Nunca me apeteceu a idéia de ter um animal doméstico. Eu tenho um certo medo de gatos e cachorros. Não gosto de pegar no colo, nem mesmo os filhotinhos, que são tão fofos. Tenho uma certa dificuldade de lidar com esses seres irracionais. Sempre acho que uma hora ou outra eles vão me atacar. Então sempre mantenho uma distância segura.

Meu filho, ao contrário, adora bichos. Não sei como ele aprendeu isso. E obviamente sempre quis ter um animalzinho em casa. Uma vez ele me convenceu de que poderíamos ao menos tentar ter um gatinho. Uma vizinha do prédio que tinha um monte de filhos e de gatos ofereceu um filhote. Lá veio o Rajadinho.

Arrumamos uma caminha na área de serviço. Eu estipulei que, de noite, o gato só podia circular pela cozinha e área de serviço. Eu tinha tanto medo que evitava ir à cozinha no meio da noite. Sei lá. Vai que ele resolvesse me atacar.

No terceiro dia, quando cheguei do trabalho, cansada, havia lá uns cocôs pra eu limpar. Aí eu desisti. Falei pro meu filho que infelizmente eu não conseguia conviver com um gato dentro de casa. Era eu ou ele. A vizinha aceitou o Rajadinho de volta; e meu filho, que já freqüentava a casa, sempre ia lá brincar com o bicho.

No Natal passado, ele ganhou um peixinho de presente. Um Beta. Pôs o nome de Frito. Peixe, eu achei que podia ser uma boa idéia. Afinal, o espaço dele já está bem delimitado, ele já sabe que é ali mesmo que faz as refeições e os cocôs, e não tem como atacar ninguém.

Nós estávamos de férias em Londrina e tínhamos que voltar pra Brasília. Antes, dar uma passadinha na casa da minha mãe no interior de São Paulo. O Frito, então, viajou de carro até a casa da minha mãe, de ônibus até São Paulo e de avião até Brasília. E se comportou muito bem. Não foi barrado no detector de metal. E, o que é melhor, não morreu.

No início eu nem lembrava que ele existia. Se deixassem comigo a incumbência de lhe dar comida, ele passava fome. Mas, com o tempo, não é que eu fui me afeiçoando ao bichinho? E ele nem é daqueles peixes bonitos, coloridos. É até sem graça. Às vezes eu até puxava um papo. Ele, sempre muito discreto, nunca emitiu um som.

Na viagem de volta a Londrina, de carro, o Frito agüentou firme os 1.200 km. Eu cuido melhor dele agora e às vezes fico pensando como é que a gente pode gostar de um peixinho... Ainda mais um desmemoriado. Meu filho descobriu na internet que o tempo de memória de um Beta é de três segundos.

Esses dias, o Frito começou a apresentar um comportamento estranho. Parou de comer. Ficava imóvel no aquário. Estava completamente macambúzio, taciturno e sorumbático, como diria o Aurélio (o Albano, meu amigo, e não o Buarque de Holanda). Será que a hora dele estava chegando? Nova pesquisa na internet informou que um Beta vive de 2 a 3 anos. Então, ele ainda tinha tempo. O que seria?

Numa loja de bichos, a moça explicou que podia ser o frio. Eu pensava que peixe nem tinha essa de sentir frio nem calor, afinal, ele nasce dentro d'água e fica molhado a vida toda. Mas achamos que era uma boa explicação. Compramos um aquecedorzinho de oito reais (quatro vezes o preço de um peixe, diria meu lado totalmente racional). E não é que o Frito voltou a ser feliz? O bichinho, coitado, estava com frio. Voltou a comer e a saracotear. E até já esqueceu que um dia passou frio.

13 comentários:

sha disse...

frito...eu o conheci quando morava num pote de sorvete

sha disse...

(ele morava)

leylelis disse...

UFA, CA.
Por um momento pensei que vc tinha colocado o aquecedor na água e fritado o bichinho. :D

Bom, em casa tive dois peixes. Um eu comprei no CONIC, garboso e tudo, mas ele resolveu bater a bota. Já outro, ganhado numa festa de criança com tema de "Nemo", mesmo sendo mirrado e sem muita graça - só era parecido um pouco com o Nemo do filme - resolveu continuar vivo. Hoje ele se assusta, treme, roda pelo aquário, dorme, toma banho, passa momentos fora do lar, enquanto se lava o aquário,come e parece gostar disso. Se não, já tinha ido. E já deve fazer quase um ano de vida.

viviane disse...

Oi Ca,
Puxa que texto gostoso!
E aí, vem pra Brasília???
To esperando :-)

beijos

Paulo Briguet disse...

Carina, Frito é um ótimo nome de peixe? E eu me lembro do Rajadinho.
Por coincidência, minha crônica de hoje no JL fala de animais. Aqui no jornal adotamos uma cachorrinha atropelada, a Branca.
Um beijo; seu blog está ótimo. Escreva mais!

Paulo Briguet disse...

Carina, Frito é um ótimo nome de peixe. É uma afirmação, não uma pergunta. Discurpa.

Marília Côrtes de Ferraz disse...

Oi Ca. Lembrei-me que demorei para assimilar o nome desse peixinho. Toda vez que você falava do frito, um ponto de interrogação surgia na minha cabeça. Depois vinha a imagem de um peixe frito (coitadinho). O mesmo acontecia quando uma amiga minha chamava a sua cachorra. O nome dela era gata. De vez em quando a gata fugia do canil e minha amiga saía gritando GATA... GATA... e vinha aquela cachorrona (setter irlandesa)abanando o rabo e as orelhas. Confesso que era uma cena bizarra, e que minha mente ficava suspensa por um tempo... até que eu revirasse o meu arquivo de representações e assimilasse o nome de gata à cachorra.
Parabéns pelo texto. É incrível como você consegue tornar belo (e romântico) um fato tão corriqueiro.
um beijo no frito rsrsrs.

carina paccola disse...

Shamba, quando você vem visitar a sua avó, a sua tia, seu primo e o Frito?
Beijos

Leybs,
realmente não seria de se estranhar se eu fizesse isso...
Beijos

Vivi,
Brasília... quem sabe no próximo feriado. Beijos

Paulo, tá adescurpado. Realmente eu preciso escrever num ritmo mais freqüente. Obrigada pelo incentivo. Beijos

Marília, o pior é que os bichinhos não podem nem reclamar dos nomes que têm, né? Mas eu gosto do nome Frito... Obrigada pelo comentário. Beijos

Cristiana Soares disse...

Carina! Que texto mais lindo! Mais fofo! Foi o que eu mais gostei até agora. Ele flui com uma leveza... que a gente não consegue parar de ler e quando vê já leu. Amei. Sem falar da história que é ótima. Parece texto de literatura infantil... A Clarice Lispector escreveu um que tem peixinhos de aquário na história tb. Conhece? Eu tb luto aqui em casa para a Lorena não trazer nenhum bichinho. Ela vive falando nisso. Mas eu tb não gosto de animais de estimação. Não por medo. Mas porque eles fazem cocô. Se não fizessem talvez eu tivesse. Tenho uma amiga que tem um gato. Quando ela viajou fez um rodízio entre os amigos para cuidar do bichano. Fui obrigada a entrar na roda. Daí eu ficava fazendo terrorismo com ela pelo telefone dizendo que eu dei uns bicos no gato para ele sossegar... hehehe.. Ela ficava doida, mas logo percebia que era sacanagem minha. Eu gosto de bichos assim: eu aqui e eles lá. Aí eu acho uns fofos! Já disse que adorei seu texto? Beijinhos minha queridinha irmã.

Campo de Força disse...

quero mais textos. estou em abstinência das produções paccolianas,
muriel

Anônimo disse...

Carina, deu um frio na barriga na hora em que você ia descrevendo a tristeza do Frito... Achei que tinha chegado a hora dele. E me peguei pensando sobre os destinos do "controle alimentício do Frito" , criado pelo Nícolas.

Beijo e parabéns.
Patricia

Cris disse...

KKKKKK
Muito bom Cá.... adorei o texto!
...sou testemunha do seu medo de ser subtamente atacada por um gato ....kkkkk

beijokas

carina paccola disse...

Pô, cris, este texto te tocou mesmo, hein (rs). Afinal, já faz tempo que ele existe. Vc já tinha feito comentário e voltou aqui... É que meu medo é algo marcante mesmo. Um beijão