quinta-feira, setembro 28


Sem sacrifício!

De vez em quando me deparo com histórias em que o sacrifício é visto como algo nobre. Pessoas que se sacrificam por outras e sentem-se, por isso, grandiosas. Para mim, nenhuma vida é mais valiosa do que a outra. Portanto, acredito que ninguém merece o sacrifício de ninguém. Eu não estou disposta a me sacrificar por ninguém e por nenhuma causa, e dispenso qualquer sacrifício que se queira fazer em meu benefício.

É claro que nos deparamos, ao longo da vida, com situações que exigem um esforço maior e já fui - e sou - capaz de suportar momentos difíceis. Eu posso passar noites em claro ao lado do meu filho, se ele estiver doente e requerer esse tipo de cuidado, mas isso para mim não se configura como sacrifício. A partir do momento em que esse gesto ficar demasiado doloroso a ponto de me sentir mártir, eu vou procurar ajuda.

O que eu não agüento é ouvir o discurso-cobrança que sempre vem acompanhado do sacrifício: Ah, mas eu fiz tanto por ele/ela e agora é isso que recebo em troca! Ou então os lamúrios de auto-piedade: Ah! Só eu sei como é difícil cuidar dele/dela... Na verdade, não consigo me comover com essas atitudes.

Ou você está ali, ao lado, para cuidar e se solidarizar, sem ficar contabilizando a sua cota de sacrifício, ou caia fora! Porque depois é inevitável a cobrança. Quem se sacrifica sempre espera uma recompensa, nem que seja pós-morte. Como ninguém garante nada pra ninguém, eu sempre tento entender qual é a minha disposição e expectativa diante do que vai surgindo na vida para tomar minhas decisões. Como diz meu pai: Quem corre por gosto, não se cansa!

6 comentários:

Aguinaldo Pavão disse...

Carina.
Muito interessante o teu texto. Uma passagem me chamou atenção:
“Eu posso passar noites em claro ao lado do meu filho, se ele estiver doente e requerer esse tipo de cuidado, mas isso para mim não se configura como sacrifício. A partir do momento em que esse gesto ficar demasiado doloroso a ponto de me sentir mártir, eu vou procurar ajuda”.
Você não acha que se admitirmos que fazemos algo em beneficio do outro e que essa ação benevolente envolve alguma dor –embora, como você fale, não em demasia – teremos de admitir que fazemos sim sacrifícios pelos outros? Não haveria uma contradição no teu pensamento? Para deixar claro minha idéia de sacrifício: sacrifício para mim implica necessariamente um custo maior que o benefício ao querido e amado eu. Não vejo por que pensar que sacrifício envolve a idéia do mártir. A minha idéia é a seguinte: todos somos seres morais. Logo, todos temos consciência de nosso dever. Ora, algumas vezes o que o nosso dever exige vai de encontro às nossas inclinações, daí eu aceitar tranqüilamente a noção de sacrifício. Eu acho que talvez o teu pai tenha razão sobre alguém não se cansar numa corrida aprazível, mas nossas relações nem sempre podem ser pautadas pelo aprazível. Algumas vezes temos de agir de mau-grado.
Presumo que você vai achar que não existe diferença entre o que estou escrevendo e o que você pensa. Mas eu penso que há grandes diferenças. Eu defendo sem hesitação que há pessoas que merecem o sacrifício de outras.
Abraços.

carina paccola disse...
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carina paccola disse...

Aguinaldo (puxa, tinha publicado ontem minha resposta, mas como havia duas cópias, eu apaguei uma, e devo ter apagado as duas... não entendi. Vou tentar reescrevê-la). Em primeiro lugar, queria agradecer seu comentário porque ele me faz pensar. Acho que concordamos em alguns pontos. Eu fiquei pensando se sou contraditória ao fazer distinção entre tipos de sacrifício. Levantar todos os dias às 6h30 para levar meu filho à escola é um sacrifício. Corrigir provas e trabalhos também é uma atividade árdua a que me submeto. São dois exemplos relacionados a projetos de vida que delineei e que estou disposta a cumprir. Concordo com você que não vivenciamos apenas situações prazerosas. Temos responsabilidades e deveres (em relação a filhos, trabalho) que temos que cumprir e pronto. Mas eu fico pensando em nossos limites. Se levantar cedo tornar-se demasiado difícil para mim, vou procurar outra solução: contratar uma kombi, ver um trajeto de ônibus para o menino ir sozinho à escola. Fico pensando até que ponto é legítimo alguém sofrer em nome do bem-estar de outro. Ou seja, será que existem pessoas que merecem que outras se sacrifiquem por elas? Fico pensando no respeito aos próprios limites. O que é leve para um, pode ser pesado para outro. Como o sacrifício é visto como algo nobre, muitas vezes podemos passar por cima de nossos limites (que poderiam ser vistos como fraquezas) para darmos conta do recado. E aí vem o lamento: Ah, mas isso é tão pesado! Então temos que avaliar bem o que aquela ação significa pra gente. Acho que a citação do meu pai quer dizer: mesmo que a corrida nos cause cãimbras ou nos deixe exaustos, continuamos correndo porque queremos e gostamos de correr, porque correr faz parte de nosso projeto de vida, então, não vou ficar lamuriando e vou superar as dores. Também não vou lamentar se não chegar em primeiro lugar na corrida (Me sacrifiquei tanto e nem ganhei o primeiro prêmio...). Não acredito que haja uma relação direta entre sacrifício e recompensa, como causa e efeito. Você pode se sacrificar e perder. Por isso, não tolero as cobranças que são feitas pelos que se sacrificam. É esse questionamento que me faço antes de optar por uma ação.
Um abraço.

célia musilli disse...

hehe..adorei a lição de vida!!! um bom domingo pra vc, com eleições...rss. um beijo

Cristiana Soares disse...

Maravilhoso!!! E vc sabe por que entendo bem isso, né?

carina paccola disse...

Cris, eu pensei muito em vc quando escrevi este post.
Beijos