sábado, fevereiro 10

A primeira visita a um campo de futebol

Em janeiro, estive em Santo Antônio da Platina. Fui a trabalho. E me lembrei de quando morei naquela cidadezinha. Era final da década de 80. Eu era recém-formada. Eu sempre soube que meu negócio era jornal impresso, mas o salário era duas vezes maior do que eu estava recebendo e topei a parada.

A TV mantinha uma secretária, eu como repórter, um cinegrafista, um operador de câmara e um motorista. Bons tempos aqueles. Eu morava num hotelzinho no “calçadão” da cidade. Depois do trabalho, nós íamos jogar sinuca nos bares da cidade. De noite, eu jogava baralho com os hóspedes do hotel. Eram viajantes. Eu era bem relacionada.

Foi lá também a primeira vez em que pisei em um campo de futebol. Fui cobrir um jogo do campeonato paranaense. Eu avisei o cinegrafista da minha ignorância sobre o tema. Ele prometeu me ajudar.

A cada lance importante, ele me avisava e eu anotava a jogada, o número do jogador e o momento em que havia ocorrido o fato. E assim passou o tempo. Mais precisamente, assim se passaram dois tempos de 45 minutos além do intervalo.

Findo o jogo, eu teria que gravar um texto para que o material fosse enviado para Londrina. O cinegrafista perguntou: Como foi o primeiro lance? Bem, o jogador havia cobrado uma falta e a bola tinha batido na trave. Aí ele quis saber o impossível: Mas como foi a falta? Eu não tinha resposta.

O cinegrafista era um cara legal. Com paciência, resolveu pedir ajuda para um radialista. Lá veio um rapaz, também cheio de boa vontade, para colaborar com a matéria. E tascou: A bola cruzou o segundo pau e... Antes que ele terminasse, eu já não conseguia mais prestar atenção.

Eu não fazia a menor idéia do que poderia ser um pau dentro de um campo, imagine, então, dois paus? Fiquei apavorada e comecei a chorar. Literalmente. E disse pro cinegrafista: Eu não vou fazer esse texto. Você manda as imagens sem texto. Eles podem me demitir, mas este texto eu não faço.

Eles não me demitiram e eu tive que cobrir todos os jogos do campeonato paranaense que foram realizados naquele ano no Norte Velho. É claro que eu torcia bravamente para que todos os times daquela região fossem desclassificados. O Platinense caiu fora logo; depois foi a vez do Matsubara, de Cambará; mas, a despeito da minha torcida, o União de Bandeirantes foi para a final contra o Coritiba. E eu tive que cobrir todos os jogos realizados em Bandeirantes.

Como cobrir futebol, sem entender do assunto

Cobrir um campeonato de futebol não significa apenas ir aos estádios em dias de jogo. É preciso também fazer matéria sobre os treinos. E isso não é tudo.

Há ainda o coletivo-apronto: o último treino antes do jogo. Ali, um repórter fica sabendo quem provavelmente vai ser escalado para a partida e, se for esperto, qual será o esquema tático do time. Quando você pensa que acabou, você ainda pode ser pautada para entrevistar o técnico do time fora do campo.

Como é que eu, que até hoje não sei nada sobre esquema tático, poderia ser capaz de fazer apenas uma perguntinha para um técnico? A saída foi contar com um assessor.
Um radialista aposentado, muito gente fina, o Dorico, se dispôs a me ajudar quando a pauta fosse futebol.

Ele amava futebol e ia conosco a todos os treinos, coletivo-apronto, jogos e entrevistas. Me ajudava nos textos e soprava as perguntas que eu tinha que fazer. Uma vez um técnico até elogiou: Você está aprendendo, hein?

O Dorico já morreu. Eu continuo sem entender de futebol. E quando vejo uma repórter mulher cobrindo futebol na tevê eu me pergunto: Como é que ela consegue?

10 comentários:

sha disse...

é, o futebol... é difícil mesmo...
e a moto...continua bem suja....rs
beijo

carina paccola disse...

nossa! eita motinho suja! onde será que esse motoqueiro foi? será que ele jogou futebol de moto na chuva num campo de terra?
o duro é que em moto não tem nem espaço pra gente escrever: lave-me, por favor!
beijos

Anônimo disse...

Ufa! Que alívio. Fui lendo com temor de que você citasse o fato de eu ter te encontrado lá no estádio José Eleutério Martins. Fui ver meu irmão jogar - ele integrava a brava Platinense, dirigida por um advogado malaco que hoje comanda um dos times de Londrina. Lembro que você me abordou meio assustada. Não sei se aquele foi o "jogo do choro", mas lembro de você ter comentado algo sobre saber nada de futebol - e eu, para variar, devo ter simplesmente ignorado tua aflição.
Beijos.
r.f.

carina paccola disse...

É verdade... Eu havia esquecido completamente o fato de ter te encontrado no estádio. Foi nesse dia mesmo. Agora eu me lembrei. Acho que fiquei tão traumatizada que apaguei as coisas boas que aconteceram aquele dia. Eu adorei ter te encontrado lá. E imagino que vc não devia imaginar o tamanho da minha ignorância.
Estou com saudades de vc.
Beijos

Marcio Antunes disse...

Legal o texto e sua sinceridade. A Soninha (espn) talvez seja uma das poucas jornalistas que realmente entendem de futebol. Mas como profissional você utilizou uma estratégia para fazer seu trabalho. Parabéns.

célia musilli disse...

rsss. adorei a lição "Como cobrir futebol sem entender do assunto". Sempre tive paúra de cobrir esporte, qualquer um, tenho medo de bola. Graças a Deus nunca me escalaram.rs Mas sei que vc sempre se sai bem. lembra daquele torneio de tênis no Country? Pois é, sei que era um sábado, a gente de plantão no jornal, vc foi lá e deu conta do recado. eu estaria até hj na quadra, tentando entender a trajetória da bolinha de um lado pro outro. Olha, me liga ou apareça, estive viajando..muiito, mas agora não arredo pé de Londrina tão cedo. beijoss

Paulo disse...

E aquele vez em que o juiz apitou o final do primeiro tempo e você perguntou, assustada: "Pra onde os jogadores estão indo?"
Beijo.

Graziella disse...

Ca, você é demais! Adorei seu texto, posso até ouvir sua voz! Sem contar que fiquei de bom humor! Te amo. sua amante

Rodolfo Brandão disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rodolfo Brandão disse...

Putz, eu acho uma babaquisse jogo de futebol. Até por que, o futebol brasileiro só tem pretenções de gerar lucros pros seus maltidos administradores e jogadores do tipo estrelinha. Cadê a garra e o amor ao que faz?!

O pior ainda, é como você deixa explícito que os donos de veículos de comunicação nos enfia (jornaleitas), num mato sem cachorro. Sem preparo e disposição pra produzir aquilo que sabemos fazer de melhor. Quem perde é o público.

Quero mais estórias como essas professora. Achei interessante isso.