terça-feira, maio 27

Uma voz dissonante

Em agosto de 2004, participei em Brasília de um seminário sobre Mìdia e Drogas, que debatia de que forma o tema drogas é abordado pela mídia. Um dos palestrantes era o senador Jéfferson Perez, que morreu sexta passada. Eu nunca tinha prestado atenção nele. E gostei muito. Tanto que, depois, passei a me interessar pela opinião dele sobre qualquer assunto. Sempre que ele era fonte de alguma matéria, eu lia para ver o que ele pensava.

Naquele encontro, ele posicionou-se favorável à liberação do uso de drogas – não sem antes deixar claro que não fazia uso de nenhum tipo de droga ilícita. Eu achei engraçada a preocupação dele. Afinal, seria mais difícil ele convencer alguém de que era usuário de drogas. Digo isso com base no estereótipo de que alguém, com um visual tão conservador, não consumiria drogas.

Ele fez ponderações importantes. Disse que não acredita que a liberação faria aumentar o número de usuários de drogas. Deu como exemplo o consumo de bebidas alcoólicas. Embora seja liberado, a grande maioria dos brasileiros não bebe nem é dependente de álcool. Por outro lado, quem usa drogas não deixa de usar porque é proibido. Se assim fosse, não haveria o narcotráfico.

Para ele, há uma ligação direta entre a proibição e a violência. O narcotráfico só existe porque há proibição.

No entanto, ele defendia que a legalização no Brasil deveria ocorrer junto com outros países, em escala universal. “Se todos os países legalizassem as drogas, eles poupariam o dinheiro que gastam na repressão sem êxito. Reduziriam a corrupção que o narcotráfico promove. A polícia, o poder judiciário, o meio político, o sistema penitenciário, tudo é corrompido pelo narcotráfico. Com a legalização, a briga entre quadrilhas, a ‘queima’ de arquivos, a corrupção com o aparato estatal e a violência de modo geral, diminuiriam. E ainda poderia se cobrar um imposto sobre a produção de drogas que seria revertido no tratamento a dependentes químicos e em campanhas educativas, embora eu não acredite nelas.” Essa citação eu peguei numa entrevista, de 2003, dada a Karine Muller, no site Baseado em Fatos.

E ele falou também que o Estado não tem o direito de reprimir quem queira consumir drogas. Naquele encontro, o senador fez suas colocações com tanta clareza e seriedade que virei sua fã. Lamentei a sua morte. Era um político íntegro, sério e comprometido, embora fosse de um partido que não me inspira o menor respeito. Ele era maior que o partido. E me faz pensar mais uma vez na importância de que nossas ações sejam coerentes com nossos princípios. Isso nos permite ser livres.

2 comentários:

Rodolfo H. Splendor Brandão disse...

Ainda não me vejo só te chamendo de carina, então vai heim. Professora, adorei o que abordou neste post.

Sempre digo pra quem é meu amigo que adoro as pessoas que tem opinião, e que sabem fazer valer oque pensam. São pessoas que segundo eu são as chamadas "ponta firme" hehe.

Por tanto opinião e atitude sempre devem andar em juntas em nossa vida.

A Fernanda Borges que é minha veterana de Unopar tem um blog e posto recentemente uma crônica meio parecida com o final da sua.

O blog dela é esse ó: http://www.meninadeamaralina.blogger.com.br/

Abraço, saudades!

carina paccola disse...

Oi, Rodolfo, obrigada pelo seu comentário. Vou ler o blog da Fernanda. Um abração