sexta-feira, abril 27
Hora do almoço
Ele veio até minha porta, pediu desculpas e disse que não tinha um tostão pra parar na zona azul. Sorri, e disse que ele estava desculpado e que eu esperaria ali, então. Dali a pouco chegaram as pessoas que ele esperava: dois velhinhos capengando. Fiquei com pena e sorri. Os velhinhos entraram na maior vagareza. Mas a minha pressa já tinha partido. O motorista veio novamente à minha porta e pediu desculpas de novo. Eu disse que estava tudo bem, eu é que pedia desculpas por ter ficado brava. Eles saíram. Entrei na garagem sorrindo e pensando que eu queria me chamar gentileza e não brabeza.
quarta-feira, abril 25
Inadequações
sábado, março 24
Óculos escuros
Desde que descobrira que o marido tinha um caso com uma aluna de 16 anos entrara em desespero. Primeiro pensou que era um pesadelo. Como assim? Ele saindo com uma garota de 16? Os dois estavam casados havia 18, mesma idade da filha mais velha. Ela havia se casado grávida. Os dois construíram muita coisa juntos. Tinham vencido na vida. Uma vida modesta, mas honesta. Tinham mais dois filhos, uma de 12 e um de 10. E agora essa? Depois de chorar baldes e baldes, viu que precisava fazer alguma coisa. Já tinha posto ele pra fora, mas precisava fazer alguma coisa a mais. Não sabia bem o quê. Dias e dias pensando em vingança. Aquilo não ia ficar assim. Uma manhã, olhou-se no espelho e viu as olheiras escuras. A única expressão no rosto era de dor. Dor e, lá no fundo, ódio. Queria se livrar daquele pesadelo. Pensou então em comprar uma arma. Sim, iria acabar com a vida dele. Com a menina não faria nada. Era quase uma criança. Ele, sim, podia ter evitado a situação. E agora merecia morrer. Bateu a porta da rua e pisou firme na calçada. Sabia onde encontrar uma arma. Um conhecido trazia muamba do Paraguai, inclusive armas. Ela diria que era pra se sentir mais segura. Afinal, depois que o marido fora posto pra fora, quase não dormia de medo de ladrão. Caminhava pela rua quando se sentiu atraída por uma vitrine. Era uma ótica, com vários óculos em exposição. Resolveu entrar. Passou um bom tempo experimentando diferentes modelos. Encontrou um par tão bonito. Combinava com o rosto dela e com a cor dos cabelos. Quando se viu no espelho, as olheiras haviam sumido atrás das lentes escuras. O preço era o mesmo que o de uma arma. Pagou à vista. Colocou no rosto e voltou para casa se sentindo bonita.
quinta-feira, março 1
Destroços
segunda-feira, janeiro 16
Borboletas Negras
Branca, linda (pelo menos no filme) e com uma sensibilidade à flor da pele, ela é filha de um poderoso defensor do Apartheid. A relação entre os dois é péssima – ela sofre muito diante de cada situação de racismo que presencia, e ele – não por acaso – usa um bigodinho bem hitleriano... O conflito entre eles não é apenas ideológico. Ela e a irmã foram abandonadas pelo pai na infância. Foram resgatadas por ele com a morte da avó materna com quem viviam. Mas a rejeição com que ele a trata é gritante.
Ingrid vive uma relação intensa com o escritor Jack Cope (interpretado por Liam Cunningham). Ele é super cuidadoso com ela, mas não dá conta do furacão que a move.
Ingrid escreve e escreve muito. Mas com sangue. Suas palavras são para expressar toda sua dor. Com a escrita ela tenta dar conta da vida. Infelizmente, o descuido do pai com ela é determinante para o seu final trágico. Vale a pena conferir o filme!
quinta-feira, dezembro 29
A pomba no telhado
quinta-feira, dezembro 1
No supermercado
Devo confessar que de vez em quando acabo comprando aqueles produtos que as moças fazem demonstração nos supermercados porque fico com uma certa pena delas. Depende do meu grau de sensibilidade. Uma amiga me diz que não tem nada a ver, que elas recebem o salário delas independentemente de haver ou não aumento de venda do produto.Sábado desses estava com o maior calor e a maior sede quando uma moça – elas sempre são gentis – me ofereceu um refrigerante sabor cola bem geladinho. Foi o encontro da sede com a vontade de beber. Como evito ter refrigerantes em casa, acabei comprando apenas uma caçulinha... Foi minha sorte porque alguns dias depois quando fui beber... uh! muito ruim. Só perde para o refrigerante Laranjinha que comprei no passado....
E aí lembrei uma vez que estava no supermercado com o Nícolas – não lembro quantos anos ele tinha, mas ele era pequeno – e no caixa pedi pra ele ir ao açougue devolver uma carne que eu não ia mais levar. Ele foi, voltou e disse: - Eu devolvi mas fiquei com dó do moço que trabalha lá...
domingo, novembro 6
Em defesa do SUS
segunda-feira, outubro 10
As minas
segunda-feira, setembro 12
As mães
Longe de meus olhos, quem cuida do meu filho?
As mães amam em exagero e se preocupam em exagero.
Como não ser exagerada diante das tragédias do mundo?
As mães queriam logo ser Deus para controlar tudo e manter seus filhos sempre longe do perigo. Longe das chuvas, trovoadas, diarreias, vírus e de toda maldade do mundo.
Longe também do ventinho frio que pode trazer um resfriado. Filhos, andem sempre agasalhados para tranquilizar suas mães!
Mães queriam ser polvos para ter mil tentáculos sobre seus filhos.
Mesmo as mães incrédulas rezam todos os dias rogando proteção aos seus meninos quando estão longe.
Mães queriam ser Argos, figura mitológica com muitos olhos, para não descansar nem mesmo quando os filhos dormem.
Mães... ainda bem que as mães não são como gostariam, se não quem protegeria os filhos de suas próprias mães?
sexta-feira, agosto 26
Sobre o crescimento
Não me lembro da casa e da cidade onde nasci. Quando me dei por gente, já morava na casa velha. A casa velha nem era tão velha; passamos a chamá-la de velha quando nos mudamos para a casa nova. Mas, se pensar bem, a casa velha era mais nova do que a casa nova.
Então, na casa velha eu não alcançava os lugares. Uma vez, na tentativa de apertar a campainha, subi na bicicleta e levei um tombo. O quarto das meninas era imenso sob o pequeno alcance da minha visão. Acima de cada cama, havia um quadrinho do batismo de cada uma. Me queixei ao meu pai de que ele havia pregado o quadro muito alto para mim. Eu queria beijar o quadrinho toda noite, antes de dormir, e não conseguia. Ele me tranquilizou: - Não precisa beijar o quadro. Já pensou se a gente quisesse beijar os santos da Igreja? O padre ia ter que arrumar uma escada...
No dia da mudança para a casa nova, quando saí pela última vez do meu quarto, ergui os pés e consegui apagar a luz. Eu havia crescido.
Hoje, quem cresceu foi meu filho. Não posso mais usar a estratégia de deixar doces e chocolates no alto do armário para controlar o consumo de porcarias. Ele, com suas pernas compridas, é quem me socorre quando meus braços são muito curtos.
quarta-feira, agosto 24
Último aviso
caso alguma coisa me acontecer,
informem a família,
foi assim, assim tinha que ser
tinha que ser dor e dor
esse processo de crescer
tinha que vir dobrado
esse medo de não ser
tinha que ser mistério
esse meu modo de desaparecer
um poema, por exemplo,
caso alguma coisa me suceder,
vá que seja um indício
quem sabe ainda não acabei de escrever
sexta-feira, julho 29
Perdas e ganhos
quarta-feira, julho 27
Todas as vidas
Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo...
Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho,
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
– Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos.
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo alegre seu triste fado.
Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera das obscuras.
segunda-feira, julho 11
Duas coisas
Outra coisa que atrapalha minha vida são os eletrônicos. Não, na verdade, eles ajudam a minha vida, mas eu não entendo direito como funcionam. E não tenho a mínima curiosidade em entender como programa, como altera, como acrescenta. Eu quero que funcionem como se fosse mágica. Nessas horas, ter um filho ao lado ajuda bastante.
Quem faz os acertos, as programações, tudo é ele. O problema é quando no recinto estamos apenas o aparelho e eu. E aí sem querer eu aperto algum botão e desconfiguro alguma coisa. Entro em desespero e tento desfazer (nessas horas a tecla Control Z cairia super bem), mas não consigo. E quanto mais eu aperto botão, pior fica.
Faz uns três dias consegui sem querer deixar o telefone de casa no modo silencioso. Ele tem identificador de chamadas. Então várias vezes eu tinha que ir lá e conferir se havia alguma chamada não atendida. E volta e meia havia alguma. Eu ligava de volta, dizia que estava no banho ou, dependendo da pessoa, confessava que eu não conseguia mais fazer meu telefone fazer barulho.
Não lembro onde guardei o manual. Meu filho voltou de viagem e também não conseguiu resolver, ou seja, a coisa foi feia. A sorte é que comprei, sem perceber, dois aparelhos (um para funcionar de extensão). Agora coloquei em uso o segundo aparelho porque o primeiro está lá, mudo, sem conseguir se expressar. Tenho certeza que ele mesmo já me gritou que botão devo apertar, mas é uma voz inaudível.
quarta-feira, junho 29
Sinuca
Eu e o cinegrafista contra o operador e o motorista. Eu era café-com-leite. Mas havia boa vontade dos meus colegas. Eles me ensinavam como me posicionar, escolhiam a bola para mim e diziam até a intensidade com que eu devia jogar. Meu principal instrutor era o motorista, meu adversário. E todos comemoravam os meus acertos.
Às vezes eu errava tanto que meu parceiro perdia a paciência. Uma vez, depois do expediente, lá estávamos num botecão perto de uma grande empresa. O bar encheu de operários. E, naquele dia, especialmente, meu parceiro reclamava muito das minhas jogadas. Ele estava mesmo sem paciência.
Quanto mais ele falava mais eu errava. Até que um dos operários me chamou para ser parceira dele. É claro que aceitei. O melhor é que o cara era tão bom que jogava por mim e por ele. Então, mesmo quando eu errava, ele salvava. A nossa dupla ficou imbatível. Ninguém nos tirava da mesa. Nem mesmo o cinegrafista. Terminei o dia como campeã e com uma satisfação interna enorme. Mas nos dias seguintes tudo voltou à rotina: eu, com meus erros; meu parceiro, com as queixas; e todos nós, contentes.
terça-feira, junho 14
O desejo dos outros
Sábia decisão a minha. Naquele dia, o capítulo estava especialmente bom. A princesa Açucena/Aurora tem movido mundos e fundos para fazer prevalecer sua vontade de se casar com Jesuíno, contrariando os desejos de seu pai de sangue, o rei Augusto. A infeliz Antonia sofre muito e um pouco mais porque está sendo obrigada a atender os desejos de seu irmão crápula, o coronelzinho Timóteo, e os do delegado Patoré. Ela vai se casar com o delegado asqueroso como parte do acordo que permitirá a Timóteo cometer um crime sem ser importunado pela Polícia.
Ao se lembrar do desejo manifestado por Cícero (“Se morrer quero ser enterrado com as glórias do cangaço”), o lindíssimo capitão Herculano interrompe o cortejo para levar à força o corpo de Cícero, contrariando os desejos da família de velar o filho perdido. Qual desejo vale mais, o do pobre Cícero ou o da pobre mãe?
Esses episódios ficcionais me levaram a pensar no livro da Maria Rita Kehl, “O tempo e o cão”, que acabei de ler. Ela fala das depressões na atualidade. E explica o quanto aquela mãe, extremamente dedicada e super onipresente, que atende prontamente todos os desejos do filho, contribui para a formação de um depressivo. O depressivo que não sente desejo, que não vivenciou o sentido de ausência-presença – fundamental para nossa formação – porque a mãe nunca lhe deixou faltar nada. O livro é de uma profundidade cativante. Levou merecidamente o prêmio Jabuti como livro do ano em 2010.
E penso o quanto abrimos mão de nossos desejos para atender os desejos dos outros, que podem ser caprichosos e custar caro. Nem sempre conseguimos distinguir aquilo que é nosso e o que é do outro. E não nos damos conta disso. Estamos lá, prontos para entender e atender o outro, e não sabemos nos ouvir, ouvir o nosso desejo, saber de fato o que queremos. Não estou falando de egoísmo, mas de desejos legítimos que confirmam nossa identidade e garantem nossa sanidade.
quinta-feira, junho 9
A mãe e a chuva!
Acordo com o barulho da chuva. São 5 da manhã. Penso na seca e aceito a chuva. Penso também que vai esfriar mais e que eu não combino com frio. Penso que vão cancelar a viagem pela região que eu iria acompanhar para fazer matéria sobre obras. Mas sei que vou ter que esperar mais tempo para confirmar o cancelamento. Não consigo mais dormir, mas fico na cama até tocar o despertador. Na hora marcada, me levanto e cumpro todo o ritual matinal.Na hora de acordar meu filho, ele reclama: – Mãe, tá frio!! Eu concordo e acrescento que está chovendo. Ele pede: – Deixa eu faltar da aula? Penso que este apelo não faria nenhum sentido na minha infância. Nunca nunquinha meu pai me deixaria faltar porque está chovendo. Aliás, não havia nenhum motivo que justificasse a falta à aula. Doença, só aquelas que realmente te derrubavam, tipo hepatite, sarampo ou algo assim.
Mas eu cedi ao apelo. Pedi um beijo e deixei que voltasse à cama. Péssima mãe, eu. Ainda fechei a porta do quarto dele para que meus barulhos não atrapalhassem seu sono. E pensei que eu queria que minha mãe estivesse aqui e me dissesse que, não, eu não precisava também sair para o trabalho porque a chuva acompanhada de frio é motivo mais que suficiente para todos voltarmos à cama.
Imagem: http://www.blogdokedj.com/2010/09/chuva.html
segunda-feira, junho 6
Letra H
No final das interjeições, revela espanto, surpresa ou terror!
Serve também pra ajudar quem quer provar que é homem mesmo! Bem-humorada, ajuda as pessoas a rirem por escrito. Camaleoa esta letra, não?
